Obra de Anne Magill

perder o rumo
enquanto se rabisca
um nome
enquanto não se traça
(mais) a rota —
ninguém o faz

arear o coração
pintá-lo de vermelho fosco
doutrinar a cara
parecer não se importar
demorar a dormir

negar-se a inventar a roda
achar pelo em ovo
subverter a roda
subverter o discurso
dos bem sucedidos
entoando um réquiem
enquanto o fracasso dança nu
e solitário
pisando o epitáfio
na lápide

rir sem par
sem cifras
vender arte na internet
amar aquela mulher
até que o amor fique a ponto de exaustão
rir

ainda que
hoje não
hoje não

--

--

obra de Anne Magill

é que eu
me sinto uma balança
pendendo
desesperadamente
p’rum lado só

é que eu
passei com todo o meu peso
por sobre essa ponte
e cometi o pecado
de não me calar

é que eu
ganho a vida
fazendo estudos de viabilidade
e só conheço o inviável

é que eu
não grito
porque sou um grito
não gozo
nem nunca ganhei
uma coisa furreca qualquer
no bingo

é que eu
só beijo a boca dela
nas fotografias

é que eu
até esse exato momento
acho que o amor é tipo
um zíper emperrado
mas eu sempre me dou
o benefício da dúvida

porque eu
sempre acho que deus
se esconde
atrás das cortinas

--

--

obra de Nickie Zimov

puxar este exato poema pela cauda
como Ruth Stone o capturava
amassar este poema
como quem sova a massa
beijar este poema com segundas intenções
numa dinâmica preliminar
em que o poema também tenha
segundas intenções

puxar a palavra que disseste, pela cauda
dar graças a deus por estar na órbita do teu corpo
suor escorrendo entre teus seios
divina testemunha
deus e as entranhas humanas: inseparáveis

regar o teu nome
num amor encharcado

dizer simultaneamente
do assombro
como se fôssemos virgens
da palavra

puxar este exato poema
pela cauda
deixar a paz cochilar

em lençóis encardidos

--

--

obra de Nickie Zimov

a retina e a caixa torácica têm um dialeto próprio
gruda na parede do meu vão emocional meu exagero da tua imagem
unta a carenagem do meu coração: teu quarto de hóspedes
seu nome no horizonte em neon seis da tarde

tropeço numa palavra que me é estrangeira, não a ti
inviável, meu amor não se apossa, é são, não espera revinda,
não pavimento esta via com espessura alguma

agora percebo que o que faço é ressecar a retina

p’ra beber toda vez que tu aparece e tua imagem hidratar o
que em mim é solo

árido

--

--